Tentei parir um gato
Quando quis transportar
O meu desejo de ser pai
Para o animal de estimação
Que
dormia no meu quarto.
Mas era um gato,
Simplesmente um gato,
Não era alguém para quem eu olhasse
E visse na sua pequena cara
Fisionomias que também vejo no meu retrato.
Tentei parir um cão
Ou um canário,
Ou um piriquito,
Um peixe num aquário
Um tamagochi vindo do
Japão.
Mas não,
não era nada disso que eu queria
Eu queria um filho meu
Um pedaço de um corpo como eu
Alguém com metade do meu DNA
Alguém que me chamasse pai
E que me chamasse pai… já!
Queria amar como pai
Ser amado como tal
E amar assim
independentemente
De ser Verão,
dia de aulas ou Natal.
Eu não quero ser pai por birrinha
Quero ser pai de direito
Por responsabilidade e por sémen
Por vontade própria
E também por respeito
Vão p’rá merda
Os que dizem que não tenho direito a ser pai
Mais à merda os que atestam
em ofício regulamentar
os que dizem sem me conhecerem
que não tenho capacidades para educar!
Que sabem eles do amor que tenho para dar?
Que sabem eles quando choro por o não poder
fazer?
Que sabem eles da forma como o pretendo educar?
Que sabem eles do filho que ainda hei-de criar!?
… … …
Entretanto consolam-me:
- Olhe, crie um gato!
Que dizem eles?...
Estou farto! Farto!
Simão Mateus