Jornal de Notícias
– 5 de Junho de 2002
As
"outras" mulheres
Júlio Machado Vaz (*)
De 5 a 7 de Julho terão lugar em Lisboa as I Jornadas Lésbicas
Portuguesas. Óptimo!, a homossexualidade feminina vive bastante na sombra da
masculina, que sempre ocupou a boca de cena. Para muito boa gente, sem pénis
não existe verdadeiro sexo; a visão popular _ e alguma "científica" _
das lésbicas como "heterossexuais que se desconhecem" ou
"mulheres afectadas por distúrbios nervosos" bebem de tal fonte. Mas
reconhecer o relativo e desdenhoso silêncio sobre o tema, não equivale a
decretá-lo absoluto. A medicina ocidental, por exemplo, debruçou-se sobre a
homossexualidade feminina ao longo da sua história.
No século II, Sorano considerava as
lésbicas (tríbades) mulheres sofrendo de uma doença
crónica da alma (a afirmação surge quase como nota de rodapé durante a
discussão da homossexualidade masculina, expressando bem a importância relativa
das duas situações!). Descreve-as como bissexuais, mas só engloba no diagnóstico
as mulheres que perseguem outras mulheres e não as perseguidas _ ó, diabo!,
esta palavra em calão tripeiro... _, porque as segundas são passivas, logo
"femininas". Tratamento? A remoção de parte do clítoris
se fosse grande, por traduzir desejo sexual exagerado e "rebeldia". Ouçamo-lo:
"um tamanho invulgar está presente em certos clítoris
e torna as mulheres desordenadas pela deformidade das suas partes privadas e,
como muitos dizem, essas mulheres, afectadas pela erecção típica dos homens,
assemelham-se-lhes no desejo e só aceitam o acto sexual com eles sob
ameaça".
Acham muito antigo? No século XIX, os jornais médicos denunciavam
os riscos da "hipertrofia" do clítoris e da
masturbação, arengando contra o uso de bicicletas e máquinas de coser (que, se
muito utilizadas, podiam transformar uma heterossexual em lésbica!). Porque a
mulher "feminina" _ e decente! _ devia ser quase assexuada, a lésbica
era considerada "masculina" por ser activa no acto sexual e
apresentar um clítoris maior do que o normal. O aumento
podia ser congénito ou resultar da masturbação, pois "muitos órgãos
crescem por manipulação" (Bernardy, 1894). Os
tratamentos propostos oscilavam entre a clitoridectomia
(sobretudo para casos hereditários) e "duches, banhos, brometo de
potássio, cânfora e acetato de amónia" (Moreau,
1884). Abundavam as frases racistas e etnocêntricas:
"Sem dúvida, de um ponto de vista étnico, há diferença na constituição
erótica, e uma anglo-saxónica pode não ser capaz de
tanta devassidão como uma turca, uma árabe ou uma negra" (Rosse, 1892).
No início do século XX, em "A Vida Sexual", afirmava Egas Moniz: "Para a tríbade o casamento é uma comodidade para a melhor
consecução dos seus fins. A mulher depois de casada pode ter mais extensas
relações e livrar-se facilmente das críticas dos soalheiros femininos... a
cópula não basta para a sua satisfação genésica. É devido a isso que essas
mulheres pedem aos homens a que se juntam a prática do coito oral". Quanto
ao diagnóstico: "Como já dissemos, o safismo
consiste na masturbação bucal com sucção do clítoris...
(por isso) o clítoris é mais proeminente... (mas) as
mordeduras do clítoris é que são bem
denunciantes...".
A evolução da medicina tem sido mais lenta do que o desejável, mas
não resisto a citar o recente "contributo" político: o líder
portuense da Juventude Popular solicitará ao Governo Civil a proibição de
qualquer desfile durante a Semana de Orgulho Gay
porque "Não é com desfiles ordinários que se consegue seja o que
for". Acrescenta que "a homossexualidade é uma doença que não é
normal", criando uma chaveta homofóbica que divide as doenças em
"normais" (como o cancro, suponho) e "anormais" (a
homossexualidade e, quem sabe?, talvez a necrofilia).
Decididamente, os verdes anos não são garantia contra a asneira e o preconceito!