COMUNICADO URGENTE
Arraial Pride cancelado:
Indiferença também é Discriminação!
A Direcção da
Associação ILGA Portugal vem por este meio comunicar a todo o público - e
muito em especial, permitam-nos, à população GLBT (gay,lésbica
bissexual e transgender) - a sua decisão de
cancelar desde já o já tradicional evento Arraial Pride,
anunciado há vários meses para o dia 29 de Junho e que, mais uma vez este ano,
teria lugar na Praça do Município, em Lisboa, a partir das 20 horas.
Este cancelamento
deve-se em grande medida à indiferença manifestada pela actual direcção da
Câmara Municipal de Lisboa -
nomeadamente pelo Gabinete do seu Presidente Dr
Santana Lopes, aquando dos variadíssimos contactos
estabelecidos por nós com o Gabinete da Presidêndia
da CML com vista à audiência anual a que nos habituámos- assim como à
consequente ausência de apoios por parte da actual Câmara, indispensáveis
para a realização deste evento nos moldes exactos em que nos últimos 5 anos
teve lugar.
Porque considerarmos grave
esta situação - nomeadamente no que diz respeito à inversão de um caminho
positivo, integrador e activamente anti-discriminatório
que a cidade de Lisboa tinha manifestado perante o mundo GLBT, através da sua
Presidência, desde 1997 - e por considerarmos que a indiferença será
neste caso um "marcar da diferença" (gostariamos
de estar enganados, pois ser indiferente também é discriminar), tem a
Direcção da Associação ILGA Portugal ainda a declarar o seguinte:
1.
Lamenta esta Associação o
silêncio e a indiferença para que foram remetidas as sua váriadíssimas
tentativas de comunicação e de pedido de audiência perante o actual Gabinete da
Presidência da CML - numa atitude nunca vista por esta casa desde 1997 - mesmo
com o envio de documentação detalhada sobre (nomeadamente) a organização do
Arraial Pride e a advertência constante de que o
adiamento constante de uma resposta por parte da Câmara Municipal poderia ter
consequências graves para esse evento (estamos a três semanas do Arraial Pride e impedidos de o organizar condignamente
a esta curta distância sem o apoio da CML): foi
sempre claro para nós que, existindo um novo Executivo na CML, os termos de
participação da CML teriam eventualmente que ser revistos, tendo em conta a
situação política e económica actual, e estávamos dispostos e preparados para o
fazer; para o que a Direcção da Associação ILGA Portugal não estáva preparada era para a clara falta de resposta
condigna por parte dos responsáveis da CML, fosse ela negativa ou afirmativa,
sobretudo porque todos os cidadãos e instituições merecem uma resposta atempada
por parte das suas autarquias sempre que justificadamente
(após 5 anos é certamente o caso!) a solicitem.
2.
Lamenta esta Associação o
facto de, com esta atitude do actual Executivo, a cidade de Lisboa ter sido (contra
a vontade dos seus cidadãos detentores de uma visão moderna do mundo e
envergonhando-os) remetida para a lista das cidades onde o apoio por parte das
autarquias aos eventos GLBT deste género não existem ou deixaram
propositadamente de existir: a cidade de Lisboa viu
nos últimos 5 anos com muito bons olhos e pacificamente a existência deste tipo
de manifestações, entendendo (estamos em crer) que, com estes eventos, seria
possível criar nos cidadãos e cidadãs da cidade e do país (na sociedade em geral,
portanto) uma atitude mais democrática e respeitadora perante a diferença e as
manifestações/populações minoritárias; este ano é o ano em que, por decisão
autárquica - ser indiferente é, sem dúvida, um acto consciente e resulta de
uma escolha! - a comunidade GLBT é silenciada numa das formas que encontrou
(mas outras haverá e estão prestes a ser anunciadas, numa prova de vigor do
movimento GLBT em Portugal!!) para mostrar neste país e sem vergonhas a sua
existência e as suas reinvidicações justíssimas e mais
do que fundamentadas; mais estranho é este episódio quando, neste ano, a
capital do Norte, o Porto, festeja com toda a pujança o Pride
(o dia 28 de Junho, dia Internacinal GLBT), com uma
semana de actividades e o apoio efectivo e nunca visto por parte da sua
autarquia (que, diga-se, tem a mesma côr política
e que, eventualmente, remete para um fórum trans-partidário
estas questões)
3.
Por último, lamenta esta
Associação o facto incontestável de, com esta atitude lamentável, a autarquia
lisboeta contribuir para um afastamento ainda maior da classe política face às
populações, neste caso (em muito, mas não só) face às populações GLBT que são
também neste país cidadãos e cidadãs de pleno direito e que como tal devem ser
tratados (mesmo que vejam os seus direitos todos os dias a serem alvo de
atitudes bem pouco dignas de uma sociedade democrática).
Num momento em que a classe política se questiona pela indiferença que a sua
actividade suscita no público em geral e que leva cada vez menos gente a
participar e a interessar-se pela vida política do país, é grave que dessa
mesma classe política a indiferença (e mesmo o ataque, se nos
lembrarmos de casos bem recentes) perante os cidadãos ditos
"diferentes" seja precisamente a atitude que incompreensivelmente
vigora, ainda por cima com consequências graves: nos últimos anos reuniam-se
mais de 13 000 pessoas no Arraial Pride da Praça do
Município (enchendo-a!), numa concentração onde a vontade saudável de lutar por
uma boa causa (a causa do respeito pela igualdade e diversidade social) deveria
ser motivo de inspiração para outras situações e encarado como uma mostra de
que Portugal (a partir da sua capital) atingiu orgulhosamente um estado de
maturidade democrática nos últimos 5 anos face às questões GLBT; infelizmente,
este ano, por uma decisão camarária que decide as lutas que merecem carinho
(será só o futebol?) e as que merecem a indiferença ou o repúdio (será
especialmente o mundo GLBT?) isso não vai ser possível nesses termos (será
noutros a anunciar brevemente para o mesmo dia 29 de Junho!!). As
responsabilidades políticas desta situação serão certamente retiradas pelos
cidadãos portugueses e portuguesas e pelo sempre crescente movimento GLBT.
Felizmente para a vida democrática portuguesa, os cidadãos e cidadãs portuguesas
já não deixam os seus créditos "por mãos alheias" no que se refere a
análises da vida do nosso país e dos factos de natureza discriminatória
que nela, triste e vergonhosamente, ainda ocorrem.
O Presidente da Direcção
José Manuel Fernandes
p.s.: o
presente comunicado foi enviado aos vários orgãos de
comunicação social, assim como à direcção da CML, à Assembleia Municipal de
Lisboa, às direcções dos vários Partidos com assento parlamentar, às bancadas
parlamentares e respectivos deputados, ao Primeiro Ministro, a Sua Exa o Presidente da Assembleia da República e a Sua Exa o Sr Presidente da República.